sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O SENTIDO DA VIDA


O SENTIDO DA VIDA

 

Marco Aurélio Baggio

 

                                         Dia-a-dia, a vida/ cuidadosamente/ seu sentido adia

como se o tivesse. 

                                       (Antônio Fantinato. Fiação do semestre) 9

 

O criador espiritual é o único homem que

leva para a velhice o sentido da vida,

 a possibilidade de criar.

(Sándor Márai. 1900. Diário)9

 

                                                  Nada tem sentido.

                                                                                     (Emílio Moura)9

                                                        Para diante! Ó ingênuos peregrinos!

                                                                                 Foi sempre por um passo distraído

                                                                                Que começaram todos os destinos.

                               (“Vivendo”. Raul de Leoni. Luz mediterrânea.
                                                                                  Rio de Janeiro: Garnier, 1998).

 

        

         Para se falar em “sentido da vida”, é necessário que, antes, defina-se o que vem a ser “vida”. Não interessa aqui o sentido puramente biológico, científico, do termo. O que se busca é um conceito que possa aclarar o significado do “estar no mundo”.

Vários autores, filósofos, santos, humanistas e humoristas e tantos outros tentaram definir a vida e o elefante. Cada um, mais arguto que o outro, descreveu aspectos substantivos, relevantes, da de ambos. O esforço intelectual de todos eles é altamente elucidativo e meritório. A definição, no entanto, limita as qualidades do objeto, encerrando-o em palavras que nem sempre expressam toda a verdade. Todas as definições são verdadeiras e incompletas. Daí a dificuldade de se encontrar uma forma exata para exprimir o “sentido da vida”.

         Algumas formulações sobre a vida levam à presunção de que se possa armar uma figura compósita do que é a vida.

         “Formar pessoa é assim, existir.” 1:72

        

Vida é um modo ardiloso e bem-sucedido de usar o não-equilíbrio presente no Universo. É uma aposta exitosa na irreversibilidade da flecha prospectiva da passagem do tempo. É uma das maravilhosas manifestações da capacidade de o universo, por si,  auto-organizar-se, rumo a sua teleologia.

         “A vida é uma chama pura, e vivemos sob a luz de um Sol invisível que temos dentro de nós.” (Thomas Browne). 5:56

 

         Viver – amar – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo. Porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada. (Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas, 2005, p. 601).

 

         É ainda Guimarães Rosa quem diz:

         “– Até hoje, para não se entender a vida, o que de melhor se achou foram os relógios.” (“Sobre a escova e a dúvida”, Tutaméia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985  p. 167).

         “A vida são dívidas. A vida são coisas muito compridas.”  (“Melim-Meloso”, Tutaméia, ob. cit.,  p. 108).

“A gente quer, mas não consegue furtar no peso da vida.”  (Rebimba, o bom.  Tutaméia).

Assim, para um dos maiores romancistas de todos os tempos, viver é aprender a viver, mesmo.

 

         Dante, na Divina Comédia, encara a vida como um caminho em que o homem se pode perder:

 

         A meio do caminho desta vida

          achei-me a errar por uma selva escura,

          longe da boa via, então perdida.” (Dante. Inferno, I).9

 

         Para o ensaísta Montaigne,          “A vida é coisa terna e fácil de se perturbar.”

 

         Shakespeare traz-nos vários conceitos sobre a vida. Dentre eles, podem-se destacar:

        

         “Somos feitos da matéria dos sonhos: nossa vida pequenina é cercada pelo sono.” (A tempestade, IV). 9:985

         “... a vida é apenas uma sombra tremeluzente, onde um pobre palhaço por uma hora se empavona e se agita no palco, sem ser ouvido; é um conto cheio de bulha e fúria, dito por um louco, significando nada.” (Macbeth, Ato, V). 9:986

         “A teia de nossa vida é composta de fios misturados; de bens e de males.”(Bem está o que bem acaba.  Ato IV). 9:986

         “Cavalheiros, o tempo da vida é muito curto!

         Para gastar tal escassez em mesquinharias, porém, seria longo demais.” (Henrique IV. 1ª parte, Ato V). 9:986

 

         Benjamin Disraëli (1804-1881), arguto deputado e escritor inglês, que proclamou a rainha Vitória “Imperatriz das Índias”, reconhece uma grande verdade: “A vida é muito curta para admitir pequenezas.”

 

         O que é a vida? Um frenesi;

que é a vida? uma ilusão,

uma sombra, uma ficção,

e o maior bem é pequeno;

pois toda a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são

[...] Mas seja verdade ou sonho, obrar bem é o que importa:

se fosse verdade, por sê-la, se não, para ganhar amigos

para quando despertarmos.

    (Calderón de la Barca. 1600-1681. A vida é sonho). 9:986

 

         A vida precisa de testemunhos da ironia, do empenho e da piedade. Deve-se vivê-la como se se tivesse ainda muito tempo e regular-se como se fosse morrer proximamente. A vida é um transe.

         Filósofo irônico, observador crítico do comportamento humano,  Machado de Assis deixou em sua obra conceitos originais sobre a vida e a arte de viver. Ressaltem-se os exemplos seguinte, retirados de sua variada obra:

 

         “A vida [...] é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra.” (“Teoria do medalhão”. Papéis avulsos. Contos. Obra completa. Vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, p. 293).

         “A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.” (Dom Casmurro. Obra completa, Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar Ltda. 1962, p. 876).

         “Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.” (Memórias póstumas de Brás Cubas. 1997, ob. cit., p. 626).

         “A vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra.” (“Maria Cora”, Relíquias da Casa Velha. 1997, ob. cit., p. 669).

“[...] entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.” (Iaiá Garcia. 1997, ob. cit., p. 405).

 

         “– [...] a vida do homem é uma série de infâncias, umas menos graciosas que as outras.” (Machado de Assis. “Sem olhos”. Relíquias da Casa Velha. 1997, Editora Jackson).

 

 

Que é a vida? Uma batalha,

Tiro ao longe, espada à cinta;

Para os barbeiros, navalha;

Para os escritores, tinta [...].

(Gazeta de Holanda. 4 de julho de 1887. Crônicas. Ed. Jackson).

 

“A vida, li não sei onde, é uma ponte lançada entre duas margens de um rio; de um lado e do outro a eternidade.” (“Revista dos Teatros”, 11 de setembro de 1859. Crítica teatral. Ed. Jackson).

          “Viver é lutar, e morrer é acabar lutando, que é outro modo de viver.” (“A Semana”. 24 de maio de 1896. Ed. Jackson.)

                  

         Manuel Bandeira, que ao longo de quase toda a sua existência esteve à espera da “indesejada das gentes”, com ela estabelecendo uma relação de revolta, no início, depois, de aceitação, como uma decorrência natural, traduz uma visão um tanto pessimista da vida.

 

Conheço é que a vida

                  É sonho, ilusão.

                  Conheço é que a vida,

                  A vida é traição.*

 

         Para o poeta de Itabira, a vida possui aspectos misteriosos e dramáticos, o que não o impede de, muitas vezes, tratar o tema de forma um tanto irônica.

        

                  Meu amigo, vamos sofrer,

                  vamos beber, vamos ler jornal,

                  vamos dizer que a vida é ruim,

                  meu amigo, vamos sofrer.* *

 

         Ressaltem-se os conceitos de outros importantes autores:

         “Trabalhemos sem raciocinar, [...] é o único meio de tornar a vida suportável.” (Voltaire. 1694-1778. Cândido). 9:987

 

         “Quanto melhor se enche a vida, menos medo se tem medo de perdê-la.” (Alain. Considerações sobre a felicidade). 9:990

 

         A vida tem como substância o perigo. Compõe-se de peripécias. É drama. (Ortega y Gasset. A rebelião das massas, IX). 9:991

         Temos nós mesmos que fazê-la, cada um a sua. A vida é uma sucessão perene de problemas a exigir decisão e escolha. Devemos fazê-la em um carro de 1ª classe. (Ortega y Gasset.  O livro das missões: Missão do Bibliotecário).9:991

 

         Mário Quintana, com grande sabedoria e simplicidade, entende que, apesar de tudo, vale a pena viver.

 

A vida é um incêndio: nela

                  Dançamos, salamandras mágicas.

                  Que importa restarem cinzas


                  Se a chama foi bela e alta?

                                   (Mário Quintana. Esconderijo do tempo.)9:993

 

         A vida não tem cura: tem bondade, alegria e beleza para rumar certo à morte. Só é possível reinventada. É o que nos afirma Cecília Meireles.*

 

         Vida é mudança de ares e de cascas. É deixar outras já vividas para viver outras vidas apetecidas. A vida não é entendível.

 

         “Só há uma coisa que a vida ensina: a vida nada ensina.” 8

         “[...] quero cair na vida.” (Adélia Prado. Terra de Santa Cruz). 9:994

 

        A vida que a gente vive


não deixa a gente viver.” (Álvaro Pacheco. 1933. A matéria do sonho: “Cantiga muito simples”).9:994

 

Inevitavelmente, quando se fala em vida, tem-se também de pensar na morte:

         “A existência é um paraíso... em confronto com tudo o que tememos da morte.” (Shakespeare. Medida por medida).

 

         “É a perspectiva da morte que dá à vida a significação que possa ter.” (Robert Browning). 5

 

         “A vida é complicada, mas querida

         A morte é simples, porém temida.

         Nisto se resumem todos os nossos problemas.” (Wanke).9

 

         “Da vida humana, a duração é um ponto; a substância, fluida; a sensação, apagada; a composição de todo o corpo, putrescível; a alma, inquieta; a sorte, imprevisível; a fama, incerta.” (Marco Aurélio. Meditações). 9:995

 

         “Vida e livros só depois de lidos [e vividos].” (Antônio Fantinato. Fiação do semestre.)9:996

 

         O romântico indianista Gonçalves Dias expressa um conceito de vida nas belas palavras dos bravo tamoio:

                  Não chores, meu filho;

                  Não chores, que a vida

                  É luta renhida:

                  Viver é lutar.

                  A vida é combate,

                  Que os fracos abate,

                  Que os fortes, os bravos,

                  Só pode exaltar.*                 

         Para Freud, amar e trabalhar são as finalidades da vida.

 

         Teça o sentido da vida. Faça-o. Aposite, aponha, deposite, apropinqüe-se. Componha. Sedimente. O sentido da vida vai-se fazendo ao fazê-lo.

         Ao viver, a pessoa urde a tessitura de sua vida. É obrigação de cada um dar sentido à sua própria vida. Vive-se para fazer valer a pena viver.

         Recorramos ainda a outros grandes autores:

 

         “Vive-se a pequena mancha de tinta, mas não a grande e maravilhosa folha branca que é a vida.” (Buttafava). 3:724

         “Vida sem meta é vagabundagem.” (Sêneca) 3:725

         “Viver é minha profissão e minha arte.” (Montaigne) 3:725

         “A vida é a arte de tirar conclusões suficientes de premissas insuficientes.” (Samuel Butler) 3:726

         “Minha vida, essa longa enfermidade.” (Pope. 1688-1744. Epístola ao Dr. Arbuthnot).9:986

 

         Viver é começar e recomeçar. Vivemos não como queremos, mas como podemos. E ainda assim, já está bom demais.

         Sábias são as palavra do grande Epicuro, quando diz que viver é viver bem, com prazer, sabedoria, bondade e justiça.

        

“É preciso fazer a própria vida como se faz uma obra de arte.”(Gabriele D’Annunzio. 1863-1938) 3:737

 

Érico Veríssimo, em Olhai os lírios do campo, XIX, chama a atenção para um outro aspecto da vida:

 

“Tu uma vez comparaste a vida a um transatlântico e te perguntaste a ti mesmo: ‘Estarei fazendo uma viagem agradável?’ Mas eu te asseguro que o mais decente seria perguntar: ‘Estarei sendo um bom companheiro de viagem?’”

 

Percebe-se, nessa citação, a preocupação com o próximo. A valorização do indivíduo. Não se pode conceber a idéia de uma vida isolada. O homem não é uma ilha cercada de seres humanos por todos os lados. Há de se privilegiar o companheirismo, a solidariedade e o amor.

Viver é “Acrescentar a vossa obra um elemento (significativo, e importante) na obra coletiva de melhoramento e de descoberta da verdade, que as gerações promovem lentamente mas com continuidade.” (G. Mazzini) 3:728

 

Para Sêneca, ter uma missão a cumprir  enlonguece o tempo necessário para existir. Segundo o filósofo, “A vida é longa e plena.” 3:728

 

Já para C. Pavese (1908-1950), “A vida, como a política, é a arte do possível.”3:728

 

Em Monique Canto-Sperber, encontramos: “Viver é querer, querer é sofrer. O homem é o mais bisonho dos seres, composto que é de desejos insaciáveis e de paixões impossíveis de satisfazer, é também o mais o mais infeliz.” 6:1.680

Ainda:

“Encontrar a felicidade na plena renúncia à felicidade é um princípio dos pessimistas.” 6:1.680 “Construir sua vida como sua obra de arte” é um dos desideratos recomendados. 6: 1.682

 

A aceitação racional da incerteza na vida e a elaboração psíquica de nosso destino como finitude são o requisito imprescindível para se encaminhar para uma morte digna e serena.

 

“Vida é conjunto de funções que resiste à morte.” (Bichat, 1800).

“O ser vivo nasce, cresce, declina e morre.” (Bernard, 1878).

Você é um deus único e irrepetível, criador de uma religião com um único adepto: você mesmo.

A vida é a sombra de um sonho fugaz.

“A vida é um fio de seda suspenso num jogo de navalhas.” (E. Cecchi. 1884-1966).3:736

“Não existe cura para o nascimento nem para a morte, a não ser aproveitar o intervalo entre eles.” (Santayana. 1863-1952).3:737

         “É precária e mísera a condição do homem: ontem, embrião, amanhã, múmia ou cinzas. Vive essa migalha de tempo. (Marco Aurélio).3:738

 

         De Horácio,3 podem-se auferir muitos ensinamentos:

“A duração breve de nossa vida não nos permite alimentar longas esperanças.”

         “Vive-se bem com pouco.”

         “Complete o tempo que lhe foi concedido.”

         “A vida foi dada para ser desfrutada. Seja hábil para viver. A virtude é a vida da vida. A vida é curta; a arte, longa.”

“(...) a vida nunca deu nada

 aos mortais sem grande fadiga.” 

 

         “Do viver que é uma corrida para morte.” (Dante) 3:739

         “Vida bem vivida proporciona uma boa morte.” (Leonardo).3

         “A única verdadeira infidelidade para um homem vivo é votar a favor da própria morte.” (H. Melville) 3:743

         “Pessoas sempre nascem com o signo errado e estar no mundo de forma digna significa corrigir dia-a-dia o próprio horóscopo.” (Umberto Eco. O pêndulo de Foucault).

 

         Umberto Eco afirma: “Entrei na vida sabendo que a lei consiste em sair dela.” *

         “A vida apaga-se por si própria como uma vela que se consumiu a sua matéria. E deveríamos estar acostumados com isso, porque, iguais a uma vela, começamos a dissipar átomos desde o primeiro instante em que somos acesos.” *

         “[...] na vida, as coisas acontecem porque acontecem; e que é só no País dos Romances que parecem acontecer por um objetivo ou providência.” *

 

         Millôr Fernandes, com sua profunda sabedoria, diz:

         “Acordei com o barulho da vida como ela é, e, como sempre, acabo vendo a vida como eu sou.” 7:490

         Demonstrando uma ironia um tanto ácida, o mesmo autor afirma: “A vida não tem happy-end. Consiste em pensar na morte o tempo todo.” 7: 490

                 


                  Você é você


                  E eu sou eu

                  Tentamos misturar


                  E veja no que deu. 7:490

 

         Sabedoria é tática para desenvolver o bom e o perfectível.

 

         Insuficiência, falha, incompletude, aleijão, estigma, carência, passividade, dependência, falta, hiância, repressão, fome, anelo, precariedade, derrelicção, desamparo: é com estes buracos e com estas carências que todo homem começa a se erguer sobre os próprios pés, sustentando-se pela coluna vertebral até o pescoço e a cabeçorra.

A coisa em si, o sobredentro, a outra coisa, a sobrecoisa, o sobretudo: esses, os mistérios do ser, às vezes, bruxuleantemente, percebidos.

         Desiludir-se. Desmisturar-se. Adquirir gã. Vau da vida é a coragem e a alegria.  São algumas das coisas que ensina Guimarães Rosa.

         Safar-se dos embondos e dos empecilhos com argúcia e discernimento, eis a sabedoria de vida.

         Do outro – Hermes, psicopompo, terapeuta, agente ascendente: pai, professor, mestre, mentor –, todos precisamos dele.

         É necessário prosopopeizar ou animizar, faceirar, cometer, atrever-se, fazer, realizar, arriscar-se. Superar os erros, corrigir os desvios, amortecer o mal. Fazer o bem, evitar o mal.

 

         O Mal é o torvo, os crespos e avessos, o devorador interno – Kirttimukha. O hiante, o iauaretê. O bichomau. Atassalhado e malaxado. ( Guimarães Rosa. Estas estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 208).

 

“Faz aos outros o bem que desejas que te façam.” Eis a Regra de Ouro.

         O que fazer com sua pessoa? Trate de realizar-se o melhor possível. A auto-realização é o principal objetivo de nossas vidas.

 

A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia pode encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. (Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas, 2005, p. 500).

 

         Assim se resume a via constelar de Riobaldo.

         A realização do desejo da pessoa é a moeda de ouro que compra sua inserção no futuro.

         Imprescindível, pois, criar espaço, para que a vida possa prosseguir. Espaço para errar com tranqüilidade e para fazer os acertos necessários.1 Ter em mente a decência e a dignidade. Os valores. Privilegiar o prazer, a alegria, a vida. Buscar aquilo que propicia o bem-estar de todos e proporciona melhores condições para a vida prosseguir. Coibir o mal e a maldade, armado de tacape, sob o império da lei.

         Saber o que fazer de si e de sua existência e elaborar um projeto de vida são os pontos de partida necessários para se alicerçar o caminho que o levará até os seus objetivos. É preciso carrear água para seu moinho.1

         A sabedoria é uma coleção de táticas para se alcançar o possível, desenvolver aquilo que é perfectível e alcançar o bem.

         Em nosso mundo interno, ruge a besta feroz de nossa constituição animal. Essa besta-fera poderá ser domada, hominizada e humanizada pela ética que comanda a civilização, o que permitirá ao homem direcionar-se à realização dos projetos que darão sentido a sua vida. 

Dessa forma, o caos evoluirá para a ordem, a inteligência, a lucidez, o valor, a conveniência, o conforto, o interesse, a satisfação, a realização, a plenitude.

As pessoas não foram terminadas, por isso sempre é possível motivá-las a melhorar e a aperfeiçoar-se.  

 

         “Aja de tal forma que a vida possa continuar a existir” é o imperativo ético fundamental, segundo Canto-Sperber. 6:1.679

 

         Com Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.), aprende-se muita coisa:

         “Viver não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.” (p. 601).

         “As coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente.” (p. 447).

         “Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande. (p. 438).

         “Serras que se vão saindo, para destapar outras serras. Tem de todas as coisas. Vivendo se aprende: mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.” (p. 429).

         “[...] porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.” (477).

         Por meio de Riobaldo, o autor melhor expressa nossa pretensão:

         “Eu queria minha vida própria, por meu querer governada.” (p. 370).

         “Ser dono definito de mim, era o que eu queria, queria.” (p. 54).

 

 

         Navigare necesse, vivere non necesse. (Pompeu, citado por Plutarco). 3

 

Navegar, sim, é preciso. Viver é uma peripécia, cheia de vicissitudes, que, às não-horas, pode simplesmente se extinguir.

 

         Sim, porque “a morte de cada um já está em edital.” (Grande sertão: veredas, op. cit., 2005, p. 597).

 

         Viver é começar e recomeçar. Vivemos não como queremos, mas como podemos. E ainda assim, já está bom demais.

         Viver é viver bem, com prazer, bondade, justiça e sabedoria.

Há de se ter em mente o velho brocardo latino: Viver honestamente, dar a cada um o que é seu, não prejudicar a ninguém.          A sabedoria dos romanos continua a iluminar nossos passos até hoje. Lamentavelmente, nem todos têm olhos para ver essa luz.

         Como se percebe, todos buscam o sentido da vida. Todos sabem da sua fugacidade e reconhecem que ela é dura, áspera, cheia de tropeços, de descaminhos e de desencontros. Muitos, porém, como Carlos Drummond de Andrade, conseguem ver na vida um momento de realização, que se torna eterno, pois “Eterna é a flor que se fana/ se soube florir [...] eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo/ mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata”. *

         O homem encontrará o sentido da vida no cumprimento de seu destino, no desempenho de suas atividades, por mais corriqueiras que sejam, no exercício da solidariedade, na prática do bem, com a consciência de que é um ser limitado e incompleto e que, portanto, está sujeito a erros e a faltas. A criatividade permitirá àqueles que a possuem fazerem-se mais eternos que outros. O importante é a constante busca de uma utopia, que jamais será alcançada.

 

“Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta. Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha.” (Grande sertão: veredas, ob. cit., 2005, p. 328).

 

Raul de Leoni, em seu poema “Vivendo...”, adverte-nos:

 

“Para diante! Ó ingênuos peregrinos!

Foi sempre por um passo distraído

Que começaram todos os destinos.”

(“Luz mediterrânea”. Rio de Janeiro: Garnier, 1998).

 

Por fim, resta-nos a perspectiva de nos tornamos um daqueles “que por ações valorosas se vão da lei da Morte libertando.” (Camões, Os Lusíadas, 1,2. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963, p. 9).

 

 

 

Referências


 

 

1.      ARAÚJO, Heloisa Vilhena. O roteiro de Deus. São Paulo: Mandarim, 1996.

2.      BAGGIO. Marco Aurélio. Máximas de conduta. Belo Horizonte: Editora B, 2003.

3.      BARELLI, Ettore e PENNACCHIETTI, Sergio. Dicionário das citações. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

4.      BLOOM, Harold. Como e por que ler? Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

5.      ____________ . Gênio – os 100 autores mais criativos da história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

6.      CANTO-SPERBER, Monique. Dictionnaire d’Éthique et de Philosophie Morale. Paris: Presses Universitaires de France, 2001.

7.      FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L&PM, 1994.

8.      ____________ . O livro vermelho dos pensamentos de Millôr. São Paulo: Editora SENAC, 2000.

9.      RÓNAI, Paulo. Dicionário Universal Nova Fronteira de Citações. 2ª ed.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.



* Manuel Bandeira. “Mascarada”. Estrela da tarde. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974, p. 326).
* * Carlos Drummond de Andrade. “Convite triste”. Brejo das almas. Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1979, p.113).
 
 
* MEIRELES, Cecília. “Reinvenção”, Vaga música. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1972, p. 195).
* Gonçalves Dias, Antônio. “Canção do Tamoio”. In: Poesia e prosa completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 394.
 
* ECO, Umberto. A ilha do dia anterior. Rio de Janeiro: Record, 1995, p. 451.
* * ECO, 1995, ob. cit. p. 451.
* * * ECO, 1995, ob. cit. p. 489.
* Carlos Drummond de Andrade. “Eterno”. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1979, p. 318-319.