O SENTIDO DA VIDA
Marco
Aurélio Baggio
Dia-a-dia, a vida/ cuidadosamente/ seu sentido adia
como se o
tivesse.
(Antônio
Fantinato. Fiação do semestre) 9
O criador espiritual é o único homem que
leva para a velhice o sentido da vida,
a possibilidade de criar.
(Sándor Márai. 1900. Diário)9
Nada tem sentido.
(Emílio Moura)9
Para diante! Ó ingênuos peregrinos!
Foi sempre por um passo distraído
Que começaram todos os destinos.
(“Vivendo”. Raul de Leoni. Luz mediterrânea.
Rio de Janeiro:
Garnier, 1998).
Para se falar em “sentido da vida”, é
necessário que, antes, defina-se o que vem a ser “vida”. Não interessa aqui o
sentido puramente biológico, científico, do termo. O que se busca é um conceito
que possa aclarar o significado do “estar no mundo”.
Vários
autores, filósofos, santos, humanistas e humoristas e tantos outros tentaram
definir a vida e o elefante. Cada um, mais arguto que o outro, descreveu
aspectos substantivos, relevantes, da de ambos. O esforço intelectual de todos
eles é altamente elucidativo e meritório. A definição, no entanto, limita as
qualidades do objeto, encerrando-o em palavras que nem sempre expressam toda a
verdade. Todas as definições são verdadeiras e incompletas. Daí a dificuldade
de se encontrar uma forma exata para exprimir o “sentido da vida”.
Algumas formulações sobre a vida levam
à presunção de que se possa armar uma figura compósita do que é a vida.
“Formar pessoa é assim, existir.” 1:72
Vida
é um modo ardiloso e bem-sucedido de usar o não-equilíbrio presente no
Universo. É uma aposta exitosa na irreversibilidade da flecha prospectiva da
passagem do tempo. É uma das maravilhosas manifestações da capacidade de o
universo, por si, auto-organizar-se,
rumo a sua teleologia.
“A vida é uma chama pura, e vivemos sob
a luz de um Sol invisível que temos dentro de nós.” (Thomas Browne). 5:56
Viver – amar – não é? – é muito
perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver
mesmo. Porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.
(Guimarães Rosa. Grande
sertão: veredas, 2005, p. 601).
É ainda Guimarães Rosa quem diz:
“– Até hoje, para não se entender a
vida, o que de melhor se achou foram os relógios.” (“Sobre a escova e a
dúvida”, Tutaméia. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1985 p. 167).
“A vida são dívidas. A vida são coisas
muito compridas.” (“Melim-Meloso”, Tutaméia,
ob. cit., p. 108).
“A gente quer,
mas não consegue furtar no peso da vida.”
(Rebimba, o bom. Tutaméia).
Assim, para um
dos maiores romancistas de todos os tempos, viver é aprender a viver, mesmo.
Dante, na Divina Comédia, encara
a vida como um caminho em que o homem se pode perder:
“A
meio do caminho desta vida
achei-me a errar por uma selva escura,
longe da boa via, então perdida.” (Dante. Inferno,
I).9
Para
o ensaísta Montaigne, “A vida é
coisa terna e fácil de se perturbar.”
Shakespeare
traz-nos vários conceitos sobre a vida. Dentre eles, podem-se destacar:
“Somos
feitos da matéria dos sonhos: nossa vida pequenina é cercada pelo sono.” (A
tempestade, IV). 9:985
“...
a vida é apenas uma sombra tremeluzente, onde um pobre palhaço por uma hora se
empavona e se agita no palco, sem ser ouvido; é um conto cheio de bulha e
fúria, dito por um louco, significando nada.” (Macbeth, Ato, V). 9:986
“A
teia de nossa vida é composta de fios misturados; de bens e de males.”(Bem está o que bem acaba. Ato IV). 9:986
“Cavalheiros,
o tempo da vida é muito curto!
Para gastar tal escassez em mesquinharias, porém, seria
longo demais.” (Henrique IV. 1ª
parte, Ato V). 9:986
Benjamin
Disraëli (1804-1881), arguto deputado e escritor inglês, que proclamou a rainha
Vitória “Imperatriz das Índias”, reconhece uma grande verdade: “A vida é muito
curta para admitir pequenezas.”
O
que é a vida? Um frenesi;
que é a
vida? uma ilusão,
uma sombra,
uma ficção,
e o maior
bem é pequeno;
pois toda a
vida é sonho, e os sonhos, sonhos são
[...] Mas
seja verdade ou sonho, obrar bem é o que importa:
se fosse
verdade, por sê-la, se não, para ganhar amigos
para quando
despertarmos.
(Calderón de la Barca. 1600-1681. A vida é sonho). 9:986
A
vida precisa de testemunhos da ironia,
do empenho e da piedade. Deve-se vivê-la como se se tivesse ainda muito tempo e
regular-se como se fosse morrer proximamente. A vida é um transe.
Filósofo
irônico, observador crítico do comportamento humano, Machado de Assis deixou em sua obra conceitos originais sobre a
vida e a arte de viver. Ressaltem-se os exemplos seguinte, retirados de sua
variada obra:
“A
vida [...] é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros,
e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra.”
(“Teoria do medalhão”. Papéis avulsos.
Contos. Obra completa. Vol. II. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, p. 293).
“A
vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as
infringir deslavadamente.” (Dom Casmurro.
Obra completa, Rio de Janeiro:
Editora Nova Aguilar Ltda. 1962, p. 876).
“Vida
é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.” (Memórias póstumas de Brás Cubas. 1997, ob. cit., p. 626).
“A
vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra.” (“Maria Cora”, Relíquias da Casa Velha. 1997, ob. cit., p. 669).
“[...]
entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver
consiste em tirar o maior bem do maior mal.” (Iaiá Garcia. 1997,
ob. cit., p. 405).
“–
[...] a vida do homem é uma série de infâncias, umas menos graciosas que as
outras.” (Machado de Assis. “Sem olhos”. Relíquias da Casa Velha. 1997,
Editora Jackson).
Que é a
vida? Uma batalha,
Tiro ao
longe, espada à cinta;
Para os
barbeiros, navalha;
Para os
escritores, tinta [...].
(Gazeta de
Holanda. 4 de julho de 1887. Crônicas. Ed. Jackson).
“A vida, li
não sei onde, é uma ponte lançada entre duas margens de um rio; de um lado e do
outro a eternidade.” (“Revista dos Teatros”, 11 de setembro de 1859. Crítica teatral. Ed. Jackson).
“Viver é lutar, e morrer é acabar lutando,
que é outro modo de viver.” (“A Semana”. 24 de maio de 1896. Ed. Jackson.)
Manuel
Bandeira, que ao longo de quase toda a sua existência esteve à espera da
“indesejada das gentes”, com ela estabelecendo uma relação de revolta, no
início, depois, de aceitação, como uma decorrência natural, traduz uma visão um
tanto pessimista da vida.
Conheço é que a vida
É sonho,
ilusão.
Conheço é que
a vida,
A vida é
traição.*
Para
o poeta de Itabira, a vida possui aspectos misteriosos e dramáticos, o que não
o impede de, muitas vezes, tratar o tema de forma um tanto irônica.
Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber,
vamos ler jornal,
vamos dizer
que a vida é ruim,
Ressaltem-se
os conceitos de outros importantes autores:
“Trabalhemos
sem raciocinar, [...] é o único meio de tornar a vida suportável.” (Voltaire.
1694-1778. Cândido). 9:987
“Quanto melhor se enche a vida, menos medo se tem
medo de perdê-la.” (Alain. Considerações
sobre a felicidade). 9:990
A
vida tem como substância o perigo. Compõe-se de peripécias. É drama. (Ortega y Gasset. A rebelião das massas, IX). 9:991
Temos
nós mesmos que fazê-la, cada um a sua. A vida é uma sucessão perene de
problemas a exigir decisão e escolha. Devemos fazê-la em um carro de 1ª classe.
(Ortega y Gasset. O
livro das missões: Missão do Bibliotecário).9:991
Mário
Quintana, com grande sabedoria e simplicidade, entende que, apesar de tudo,
vale a pena viver.
A vida é um incêndio: nela
Dançamos,
salamandras mágicas.
Que importa
restarem cinzas
Se a chama foi
bela e alta?
(Mário Quintana. Esconderijo do tempo.)9:993
A
vida não tem cura: tem bondade, alegria e beleza para rumar certo à morte. Só é
possível reinventada. É o que nos afirma Cecília Meireles.*
Vida
é mudança de ares e de cascas. É deixar outras já vividas para viver outras
vidas apetecidas. A vida não é entendível.
“Só
há uma coisa que a vida ensina: a vida nada ensina.” 8
“[...]
quero cair na vida.” (Adélia Prado. Terra
de Santa Cruz). 9:994
“A vida que a gente vive
não deixa a
gente viver.” (Álvaro Pacheco. 1933. A
matéria do sonho: “Cantiga muito simples”).9:994
Inevitavelmente,
quando se fala em vida, tem-se também de pensar na morte:
“A
existência é um paraíso... em confronto com tudo o que tememos da morte.”
(Shakespeare. Medida por medida).
“É
a perspectiva da morte que dá à vida a significação que possa ter.” (Robert
Browning). 5
“A
vida é complicada, mas querida
A
morte é simples, porém temida.
Nisto
se resumem todos os nossos problemas.” (Wanke).9
“Da
vida humana, a duração é um ponto; a substância, fluida; a sensação, apagada; a
composição de todo o corpo, putrescível; a alma, inquieta; a sorte,
imprevisível; a fama, incerta.” (Marco Aurélio. Meditações). 9:995
“Vida
e livros só depois de lidos [e vividos].” (Antônio Fantinato. Fiação do semestre.)9:996
O
romântico indianista Gonçalves Dias expressa um conceito de vida nas belas
palavras dos bravo tamoio:
Não chores, meu filho;
Não chores,
que a vida
É luta
renhida:
Viver é lutar.
A vida é
combate,
Que os fracos
abate,
Que os fortes,
os bravos,
Para
Freud, amar e trabalhar são as finalidades da vida.
Teça
o sentido da vida. Faça-o. Aposite, aponha, deposite, apropinqüe-se. Componha.
Sedimente. O sentido da vida vai-se fazendo ao fazê-lo.
Ao
viver, a pessoa urde a tessitura de sua vida. É obrigação de cada um dar
sentido à sua própria vida. Vive-se para fazer valer a pena viver.
Recorramos
ainda a outros grandes autores:
“Vive-se
a pequena mancha de tinta, mas não a grande e maravilhosa folha branca que é a
vida.” (Buttafava). 3:724
“Vida
sem meta é vagabundagem.” (Sêneca) 3:725
“Viver
é minha profissão e minha arte.” (Montaigne) 3:725
“A
vida é a arte de tirar conclusões suficientes de premissas insuficientes.”
(Samuel Butler) 3:726
“Minha
vida, essa longa enfermidade.” (Pope. 1688-1744. Epístola ao Dr. Arbuthnot).9:986
Viver
é começar e recomeçar. Vivemos não como queremos, mas como podemos. E ainda
assim, já está bom demais.
Sábias
são as palavra do grande Epicuro, quando diz que viver é viver bem, com prazer,
sabedoria, bondade e justiça.
“É preciso
fazer a própria vida como se faz uma obra de arte.”(Gabriele D’Annunzio.
1863-1938) 3:737
Érico
Veríssimo, em Olhai os lírios do campo,
XIX, chama a atenção para um outro aspecto da vida:
“Tu uma vez comparaste a vida a um transatlântico e
te perguntaste a ti mesmo: ‘Estarei fazendo uma viagem agradável?’ Mas eu te
asseguro que o mais decente seria perguntar: ‘Estarei sendo um bom companheiro
de viagem?’”
Percebe-se,
nessa citação, a preocupação com o próximo. A valorização do indivíduo. Não se
pode conceber a idéia de uma vida isolada. O homem não é uma ilha cercada de
seres humanos por todos os lados. Há de se privilegiar o companheirismo, a
solidariedade e o amor.
Viver é
“Acrescentar a vossa obra um elemento (significativo, e importante) na obra
coletiva de melhoramento e de descoberta da verdade, que as gerações promovem
lentamente mas com continuidade.” (G. Mazzini) 3:728
Para Sêneca, ter uma missão a cumprir enlonguece o tempo necessário para existir.
Segundo o filósofo, “A vida é longa e plena.” 3:728
Já para C.
Pavese (1908-1950), “A vida, como a política, é a arte do possível.”3:728
Em Monique
Canto-Sperber, encontramos: “Viver é querer, querer é sofrer. O homem é o mais
bisonho dos seres, composto que é de desejos insaciáveis e de paixões
impossíveis de satisfazer, é também o mais o mais infeliz.” 6:1.680
Ainda:
“Encontrar a
felicidade na plena renúncia à felicidade é um princípio dos pessimistas.” 6:1.680
“Construir sua vida como sua obra de arte” é um dos desideratos recomendados. 6:
1.682
A aceitação
racional da incerteza na vida e a elaboração psíquica de nosso destino como finitude
são o requisito imprescindível para se encaminhar para uma morte digna e
serena.
“Vida é
conjunto de funções que resiste à morte.” (Bichat, 1800).
“O ser vivo
nasce, cresce, declina e morre.” (Bernard, 1878).
Você é um deus
único e irrepetível, criador de uma religião com um único adepto: você mesmo.
A vida é a
sombra de um sonho fugaz.
“A vida é um
fio de seda suspenso num jogo de navalhas.” (E. Cecchi. 1884-1966).3:736
“Não existe
cura para o nascimento nem para a morte, a não ser aproveitar o intervalo entre
eles.” (Santayana. 1863-1952).3:737
“É
precária e mísera a condição do homem: ontem, embrião, amanhã, múmia ou cinzas.
Vive essa migalha de tempo. (Marco Aurélio).3:738
De
Horácio,3 podem-se auferir muitos ensinamentos:
“A duração
breve de nossa vida não nos permite alimentar longas esperanças.”
“Vive-se
bem com pouco.”
“Complete
o tempo que lhe foi concedido.”
“A
vida foi dada para ser desfrutada. Seja hábil para viver. A virtude é a vida da
vida. A vida é curta; a arte, longa.”
“(...) a vida
nunca deu nada
aos mortais sem grande fadiga.”
“Do
viver que é uma corrida para morte.” (Dante) 3:739
“Vida
bem vivida proporciona uma boa morte.” (Leonardo).3
“A
única verdadeira infidelidade para um homem vivo é votar a favor da própria morte.”
(H. Melville) 3:743
“Pessoas
sempre nascem com o signo errado e estar no mundo de forma digna significa
corrigir dia-a-dia o próprio horóscopo.” (Umberto Eco. O pêndulo de Foucault).
“A
vida apaga-se por si própria como uma vela que se consumiu a sua matéria. E
deveríamos estar acostumados com isso, porque, iguais a uma vela, começamos a
dissipar átomos desde o primeiro instante em que somos acesos.” *
“[...]
na vida, as coisas acontecem porque acontecem; e que é só no País dos Romances
que parecem acontecer por um objetivo ou providência.” *
Millôr
Fernandes, com sua profunda sabedoria, diz:
“Acordei
com o barulho da vida como ela é, e, como sempre, acabo vendo a vida como eu
sou.” 7:490
Demonstrando
uma ironia um tanto ácida, o mesmo autor afirma: “A vida não tem happy-end. Consiste em pensar na morte o
tempo todo.” 7: 490
Você é você
E eu sou eu
Tentamos misturar
E veja no que
deu. 7:490
Sabedoria
é tática para desenvolver o bom e o perfectível.
Insuficiência,
falha, incompletude, aleijão, estigma, carência, passividade, dependência,
falta, hiância, repressão, fome, anelo, precariedade, derrelicção, desamparo: é
com estes buracos e com estas carências que todo homem começa a se erguer sobre
os próprios pés, sustentando-se pela coluna vertebral até o pescoço e a
cabeçorra.
A coisa em si,
o sobredentro, a outra coisa, a sobrecoisa, o sobretudo: esses, os mistérios do
ser, às vezes, bruxuleantemente, percebidos.
Desiludir-se.
Desmisturar-se. Adquirir gã. Vau da vida é a coragem e a alegria. São algumas das coisas que ensina Guimarães
Rosa.
Safar-se
dos embondos e dos empecilhos com argúcia e discernimento, eis a sabedoria de
vida.
Do
outro – Hermes, psicopompo, terapeuta, agente ascendente: pai, professor,
mestre, mentor –, todos precisamos dele.
É
necessário prosopopeizar ou animizar, faceirar, cometer, atrever-se, fazer,
realizar, arriscar-se. Superar os erros, corrigir os desvios, amortecer o mal.
Fazer o bem, evitar o mal.
O
Mal é o torvo, os crespos e avessos, o devorador interno – Kirttimukha. O
hiante, o iauaretê. O bichomau. Atassalhado e malaxado. ( Guimarães Rosa. Estas estórias. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985, p. 208).
“Faz aos
outros o bem que desejas que te façam.” Eis a Regra de Ouro.
O
que fazer com sua pessoa? Trate de realizar-se o melhor possível. A
auto-realização é o principal objetivo de nossas vidas.
A que era: que
existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa
viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe
encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia pode encontrar e saber? Mas,
esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o
confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação
possível da gente é que consegue ser a certa. (Guimarães
Rosa. Grande sertão: veredas, 2005, p. 500).
Assim
se resume a via constelar de Riobaldo.
A
realização do desejo da pessoa é a moeda de ouro que compra sua inserção no
futuro.
Imprescindível,
pois, criar espaço, para que a vida possa prosseguir. Espaço para errar com
tranqüilidade e para fazer os acertos necessários.1 Ter em mente a
decência e a dignidade. Os valores. Privilegiar o prazer, a alegria, a vida.
Buscar aquilo que propicia o bem-estar de todos e proporciona melhores
condições para a vida prosseguir. Coibir o mal e a maldade, armado de tacape,
sob o império da lei.
Saber
o que fazer de si e de sua existência e elaborar um projeto de vida são os
pontos de partida necessários para se alicerçar o caminho que o levará até os
seus objetivos. É preciso carrear água para seu moinho.1
A
sabedoria é uma coleção de táticas para se alcançar o possível, desenvolver
aquilo que é perfectível e alcançar o bem.
Em
nosso mundo interno, ruge a besta feroz de nossa constituição animal. Essa
besta-fera poderá ser domada, hominizada e humanizada pela ética que comanda a
civilização, o que permitirá ao homem direcionar-se à realização dos projetos
que darão sentido a sua vida.
Dessa forma, o
caos evoluirá para a ordem, a inteligência, a lucidez, o valor, a conveniência,
o conforto, o interesse, a satisfação, a realização, a plenitude.
As pessoas não
foram terminadas, por isso sempre é possível motivá-las a melhorar e a
aperfeiçoar-se.
“Aja
de tal forma que a vida possa continuar a existir” é o imperativo ético
fundamental, segundo Canto-Sperber. 6:1.679
Com
Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas (Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2005.), aprende-se muita coisa:
“Viver
não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é
que é o viver, mesmo.” (p. 601).
“As
coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente.” (p. 447).
“Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita,
horrorosamente, esta vida é grande. (p. 438).
“Serras que se vão saindo, para destapar outras serras. Tem
de todas as coisas. Vivendo se aprende: mas o que se aprende, mais, é só a fazer
outras maiores perguntas.” (p. 429).
“[...] porque a vida é mutirão de
todos, por todos remexida e temperada.” (477).
Por
meio de Riobaldo, o autor melhor expressa nossa pretensão:
“Eu
queria minha vida própria, por meu querer governada.” (p. 370).
“Ser
dono definito de mim, era o que eu queria, queria.” (p. 54).
Navigare necesse, vivere non necesse.
(Pompeu, citado por Plutarco). 3
Navegar, sim, é preciso. Viver é uma peripécia, cheia
de vicissitudes, que, às não-horas, pode simplesmente se extinguir.
Sim,
porque “a morte de cada um já está em edital.” (Grande sertão: veredas, op.
cit., 2005, p. 597).
Viver
é começar e recomeçar. Vivemos não como queremos, mas como podemos. E ainda
assim, já está bom demais.
Viver
é viver bem, com prazer, bondade, justiça e sabedoria.
Há de se ter
em mente o velho brocardo latino: Viver honestamente, dar a cada um o que é
seu, não prejudicar a ninguém. A
sabedoria dos romanos continua a iluminar nossos passos até hoje.
Lamentavelmente, nem todos têm olhos para ver essa luz.
Como
se percebe, todos buscam o sentido da vida. Todos sabem da sua fugacidade e
reconhecem que ela é dura, áspera, cheia de tropeços, de descaminhos e de
desencontros. Muitos, porém, como Carlos Drummond de Andrade, conseguem ver na vida
um momento de realização, que se torna eterno, pois “Eterna é a flor que se
fana/ se soube florir [...] eterno é tudo aquilo que vive uma fração de
segundo/ mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o
resgata”. *
O
homem encontrará o sentido da vida no cumprimento de seu destino, no desempenho
de suas atividades, por mais corriqueiras que sejam, no exercício da
solidariedade, na prática do bem, com a consciência de que é um ser limitado e
incompleto e que, portanto, está sujeito a erros e a faltas. A criatividade
permitirá àqueles que a possuem fazerem-se mais eternos que outros. O
importante é a constante busca de uma utopia, que jamais será alcançada.
“Todo caminho
da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta,
a gente sobe, a gente volta. Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou
dando batalha.” (Grande sertão: veredas, ob. cit., 2005, p. 328).
Raul de Leoni,
em seu poema “Vivendo...”, adverte-nos:
“Para diante! Ó ingênuos peregrinos!
Foi sempre por um passo distraído
Que começaram todos os destinos.”
(“Luz
mediterrânea”. Rio de Janeiro: Garnier, 1998).
Por fim,
resta-nos a perspectiva de nos tornamos um daqueles “que por ações valorosas se
vão da lei da Morte libertando.” (Camões, Os
Lusíadas, 1,2. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963, p. 9).
Referências
1. ARAÚJO,
Heloisa Vilhena. O roteiro de Deus. São Paulo: Mandarim, 1996.
2. BAGGIO.
Marco Aurélio. Máximas de conduta.
Belo Horizonte: Editora B, 2003.
3. BARELLI,
Ettore e PENNACCHIETTI, Sergio. Dicionário
das citações. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
4. BLOOM,
Harold. Como e por que ler? Rio de
Janeiro: Objetiva, 2001.
5. ____________ . Gênio – os 100 autores mais criativos da
história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
6. CANTO-SPERBER, Monique. Dictionnaire
d’Éthique et de Philosophie Morale. Paris: Presses Universitaires de
France, 2001.
7. FERNANDES,
Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L&PM,
1994.
8. ____________
. O livro vermelho dos pensamentos de Millôr. São Paulo: Editora SENAC,
2000.
9. RÓNAI,
Paulo. Dicionário Universal Nova
Fronteira de Citações. 2ª ed. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
* Manuel Bandeira. “Mascarada”. Estrela da tarde. Poesia completa e
prosa. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974, p. 326).
*
* Carlos Drummond de Andrade.
“Convite triste”. Brejo das almas. Poesia
e Prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1979, p.113).
* MEIRELES, Cecília. “Reinvenção”, Vaga música. Obra poética. Rio
de Janeiro: José Aguilar Editora, 1972, p. 195).
* Gonçalves Dias, Antônio.
“Canção do Tamoio”. In: Poesia e
prosa completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 394.
* ECO, Umberto. A ilha do dia
anterior. Rio de Janeiro: Record, 1995, p. 451.
* Carlos Drummond de Andrade. “Eterno”. Rio de Janeiro: Editora Nova
Aguilar, 1979, p. 318-319.
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